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Admiro os argumentistas que conseguem criar boas comédias. E aqui com todos os meus ingredientes preferidos: uma família, alguns amigos, um cão, uma paisagem de prender a respiração, e uma verdadeira aventura. 

Achei engraçado o resumo na página do IMDB: a história da mulher que gosta mais do cão do que do marido. E um dia o marido perde o cão...

Se formos justos, o cão é a personagem principal, embora apareça apenas no princípio e no fim do filme. O cão está sempre presente, mesmo quando está ausente. Ele é a personagem que irá ligar a família e ajudá-los a valorizar o que verdadeiramente importa. E sem lamechices, mesmo quando mostra o lado chato da vida dos cães: abandonados, colocados em canis superlotados, abatidos quando não adoptados. E já para não falar do lado chato da vida das pessoas: envelhecer, os problemas dos ossos, as pedras nos rins, os exames médicos.

O que sobressai neste filme: o guião, as personagens, o ritmo certo dos diálogos, os actores. Nos filmes de Kasdan as personagens brilham. Há sempre uma certa excentricidade, uma luninosidade, uma rebeldia, uma alegria, distribuídas em doses generosas pelas personagens. A tristeza pode abaná-las mas não as derruba. É essa a marca registada de Kasdan. 

A importância do cão já a vimos numa tragédia, o Turista Acidental, e também no papel de aproximar o homem triste e solitário da mulher alegre e sociável. 

Aqui, depois de salvo na auto-estrada pela mãe e filha, conseguirá a proeza de arranjar o marido perfeito, o veterinário, para a filha, fazer companhia à mãe na fase do ninho vazio, aproximar o casal que está desintonizado e ainda ajudar o sobrinho a aceitar o novo namorado da mãe (dele). 

 

 

 

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publicado às 21:44

Excesso de bagagem

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.11

 

Nas Nuvens deixou-me perplexa. Construção em documentário, interacção de personagens muito realista e verosímil. O nosso herói preconiza a simplificação da existência pela libertação do excesso de bagagem que vai desde as tralhas inúteis aos relacionamentos e compromissos. No final (do filme) sofrerá um rude golpe que o confrontará com a organização da sua vida. 

 

Muito actual no tema (os despedimentos de pessoal), na rapidez e eficiência dos resultados a apresentar nas organizações, na forma fria e artificial como as empresas tratam os seus recursos humanos, como esquecem a sua dimensão humana.

Muito actual na forma como se organizam as vidas, quase incompatível com a atenção e a tranquilidade que os relacionamentos requerem. Adiar a estabilidade, o medo do que isso significa. O nosso herói, adolescente tardio, sofre esse conflito, o desejo de um ninho, a nostalgia desse ninho, e o desejo de nunca parar, de debicar alegremente a vida. E no entanto, será ele a acalmar o pânico do noivo da sobrinha na manhã do casamento.

Está prestes o nosso herói a sofrer um rude golpe na sua auto-estima e valor próprio: a mulher que pensava estar sintonizada com ele na possibilidade de um ninho algures entre viagens aéreas vê-o como um intervalo, umas mini-férias da família. George Clooney consegue transmitir toda a ansiedade e a decepção nesse telefonema breve: Pensava que querias o mesmo, diz-lhe ela. Ele perde a voz por momentos. Magnífico.

 

Nas Nuvens é também um exercício fundamental sobre a loucura das organizações (empresas, instituições, etc.), a forma como organizam o trabalho e tratam os seus recursos humanos. Vejam e revejam esses desabafos emocionados de pessoas simples e comuns na reunião do despedimento. Como verbalizam ali o essencial sobre si próprios, o seu valor próprio, e as coisas para si fundamentais: o amor e a família. A sua humanidade.

 

Outro filme sobre excesso de bagagem é O Turista Acidental. O nosso herói mantém esta cultura no trabalho que exerce: escreve sobre viagens de negócio sem ser tocado pelas diferenças culturais.

 

Um filme sobre laços familiares de dependência mútua, em que tudo parece funcionar em simbiose mas em que um elemento assume o papel maternal. Um drama - a perda do filho - coloca o casal na depressão e na incapacidade de virar a página. O nosso herói adormece as emoções e o desespero no trabalho, mas a mulher não o consegue fazer e ilude-se na necessidade de partir. O espaço qiue deixa ao nosso herói torna-se na sua possibilidade de sentir finalmente a dor, as emoções reprimidas.

 

O filme está construído de forma muito inteligente, como um guião turístico de viagens para homens de negócios, só que em vez de lhes propor conhecer os locais e as suas especificidades, defende-os desse confronto. 

A minha cena preferida é a do nosso herói a pegar na mão do miúdo frágil, filho da nova amiga, enquanto o guião do livro refere que um viajante pode ser surpreendido com um novo item na sua bagagem.

Mas há também a cena do abraço reconfortante, que é como chegar a casa. E o nosso heroi chega a casa da forma mais improvável possível.

Interessante observar no filme duas atitudes completamente diversas perante os desafios da vida: o nosso herói procura defender-se da vida e dos outros, a nova amiga aproveita todas as oportunidades para viver novas experiências. Trata-se de um encontro feliz, a possibilidade de mudar a bagagem.

 

 

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publicado às 10:54

O que nos separa e o que nos une

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.09.07

O que nos separa uns dos outros e o que nos une? Encontros que julgamos casuais, frases que nos tocam e retemos, a proximidade do fim e o milagre da sobrevivência.

A mulher e a criança, um apelo visceral, vivo, contínuo. O homem que se distrai do essencial e que reencontra o seu lugar. Os solitários que se encontram, milagrosamente. A rapariga que descobre a cura para a dor na desorientação. Os adolescentes que constroem a sua autonomia, um sem grandes sobressaltos, outro com grandes cicatrizes.

Estamos estranhamente ligados uns aos outros, sem nos apercebermos disso. Podemos alterar acontecimentos, até percursos, vidas, de outros. Evitá-lo ou assumir um papel? Interferir ou manter a distância? Estranho dilema.

O realizador de filmes violentos, que sobrevive a um susto e a um tiro, julga ter tido uma revelação, mas volta ao seu estado inicial. Para ele, o Grand Canyoné o que nos separa.

Para o grupo de diversos e tão próximos, é essa visão pela manhã, esse silêncio, o que nos une estranhamente uns aos outros.

 

 

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publicado às 17:03


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